Deslocados: A canção dos mares de gente, cantada pelo Napa

Na volta cansada pra casa, quando o corpo parece não caber mais na rotina, nem na esperança. E é ali, entre o trem e o asfalto, que eu canto em silêncio sobre o mar de gente.

Clipe de Deslocado, do Napa

Ouvi Deslocado pela primeira vez num ônibus, indo de Carapicuíba pra Santana de Parnaíba. Ainda era madrugada, a cidade acordava aos soluços — buzinas, rádios ligadas, o barulho abafado de passos apressados. Eu, com o fone quase mudo, só queria passar o tempo da viagem. Mas aí aquela melodia começou.

Não precisei nem fechar os olhos pra me ver ali: alguém entre margens, tentando fazer sentido nesse vai e vem entre a cidade onde moro e a cidade onde trabalho. Pode parecer exagero, mas a sensação de não pertencer — de estar sempre um pouco de fora — é real. E naquele momento, escutando a banda NAPA cantar no Eurovision 2025, me dei conta: tem gente do outro lado do oceano sentindo a mesma coisa.

Tanto esta como a edição passada do Festival da Canção e esta do Eurovision foram marcadas sobre imigração. A Europa, de novo, discutia quem merece ficar e quem deve voltar. O palco brilhava, os apresentadores sorriam em mais de uma língua, mas havia uma tensão por trás das luzes: as leis apertando, as fronteiras se fechando. E no meio disso tudo, uma canção portuguesa, feita por músicos das ilhas, falava sobre não ter lugar — ou sobre tentar caber em todos ao mesmo tempo.

Eu sei, não moro fora do país. Meu passaporte continua brasileiro, sem carimbos. Mas ser periférico também é ser deslocado. Tem dia que parece que só atravessando a ponte que divide Carapicuíba com Barueri já se cria uma barreira invisível — como se a cidade dissesse: “aqui você só trabalha, não pertence”. E aí, vem o NAPA cantando que “um coração sem país” pode ser também um coração sem CEP fixo, sem certeza, mas cheio de história.

Desde a canção de Maro, “Saudade Saudade”, não via uma apresentação portuguesa que me fizesse sentir que eu própria escreveria algo para o Eurovision. Como se algum músico lesse a minha mente ou de uma outra pessoa parecida. Aliás, também me recordo daquela música do Xutos e Pontapés: “De Bragança a Lisboa, são duas horas de distância…

Duas horas, no que depender do trânsito das marginais e rodovias, separam Carapicuíba de São Paulo. E nessa rotina de buscar chegar em casa, pra um momento de aconchego, o corpo fica cansado.

Na volta cansada pra casa, quando o corpo parece não caber mais na rotina, nem na esperança. E é ali, entre o trem e o asfalto, que eu canto em silêncio sobre o mar de gente.  E que a gente se encontre, mesmo que seja só por uma música no caminho.

Que os meninos da Madeira venham logo ver o outro mar de gente que há no Brasil.

Opa, tudo bem?

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Uma resposta para “Deslocados: A canção dos mares de gente, cantada pelo Napa”.

  1. […] Portugal traz uma das melhores canções desde “Saudade, Saudade” (2022). Napa brinda e leva a mensagem sobre migrações. […]

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