Na coletiva de imprensa da RTVE para o Eurovision 2025, realizada ontem, a cantora Melody foi questionada sobre sua posição em relação à presença de Israel no festival, em meio ao agravamento do conflito em Gaza. Sua resposta, marcada pela hesitação e pelo uso da palavra “neutralidade”, não caiu bem entre jornalistas e fãs. Disse que “todas as guerras são incômodas” e que não poderia se posicionar politicamente por cláusulas contratuais — algo logo desmentido pela emissora, que afirmou que a proibição se aplica somente às letras das músicas, e não à liberdade de expressão dos artistas.
A neutralidade escolhida por Melody soou como uma forma de evitar conflito — mas num cenário em que centenas de artistas europeus pedem o boicote à delegação israelense, essa mesma neutralidade passou a soar cúmplice. Internautas apontaram também o fato de Melody estar com shows agendados em eventos patrocinados por empresas israelenses, o que pode indicar um alinhamento tácito ou, no mínimo, contraditório à sua fala evasiva.
A União Europeia de Radiodifusão (EBU), responsável pelo evento, manteve sua posição de que todos os membros têm o direito de participar, mesmo após diversas denúncias sobre o comportamento da delegação israelense no evento em 2024. Documentos divulgados por veículos espanhóis revelaram que houve desrespeitos claros às regras da competição por parte de Israel, mas nenhuma sanção firme foi aplicada. A chamada “lei da mordaça” usada para justificar a censura de temas sociais e políticos parece ser aplicada com dois pesos e duas medidas.
A eleição de Ana María Bordas como nova presidente do Grupo de Referência da EBU trouxe uma potencial reviravolta. Ela declarou que a “neutralidade” e outras políticas estruturais do festival serão discutidas em junho, especialmente diante do desgaste da figura de Martin Österdahl, produtor executivo do evento, que pode estar de saída em 2026, segundo rumores da imprensa sueca. As mudanças vêm em boa hora: Eurovision perdeu credibilidade junto ao público mais jovem, sensível a temas sociais e engajado nas redes.
Outro ponto que ficou em segundo plano, mas merece atenção, é o futuro da expansão latino-americana do festival. O Eurovision Latin America, anunciado com entusiasmo em 2023, não teve nenhuma menção durante a semana do evento, gerando especulações. Será que a Espanha, agora com papel de liderança na EBU, retomará o projeto Hispavisión ao lado de Portugal e países latino-americanos? A expectativa é que a nova gestão abandone o jogo de esconde-esconde e traga mais transparência e compromisso com o público da diáspora ibérica.
Em tempos sombrios, neutralidade não é equilíbrio: é apagamento. O silêncio pode ser confortável para quem o pratica, mas é ensurdecedor para quem sofre. Melody pode ter escolhido não se posicionar, mas a resposta veio do público — e ela foi clara, ruidosa e política.
