Do Eurovision ao Glastonbury: Como a Crise Israel-Palestina Deflagrou uma Rebelião Cultural nos Festivais Europeus

De Malmö a Madri. De Barcelona a Glastonbury. A linha entre cultura e política nunca foi tão visível — ou tão tênue.

Nos últimos meses, uma profunda crise envolvendo política internacional, financiamento cultural e liberdade de expressão se desenrolou nos bastidores dos maiores festivais de música da Europa. O primeiro estopim visível foi o Festival Eurovision 2024, realizado em Malmö, na Suécia. A presença de Israel em meio à intensificação da guerra em Gaza gerou protestos de rua, cartas de boicote assinadas por artistas, acusações de censura e um clima de tensão global que rapidamente se refletiu nos palcos culturais do continente.

Embora a organização do Eurovision tenha proibido manifestações explícitas dentro da arena, do lado de fora milhares se reuniram para denunciar o que consideram um duplo padrão — permitindo a participação de Israel, mesmo diante de investigações da ONU sobre violações de direitos humanos na Faixa de Gaza, enquanto Rússia e Belarus seguem banidas, pelas violações cometidas contra Ucrânia. O incidente expôs o conflito entre entretenimento e responsabilidade política e abriu caminho para uma onda de ações mais contundentes, consequentes, nos meses seguintes.

A Investigação na Espanha: Cultura como Campo de Disputa


Pouco após o Eurovision, os olhares se voltaram para a Espanha, onde ativistas do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) denunciaram que diversos festivais estavam sendo financiados por conglomerados ligados a interesses israelenses. O alvo principal foi a Superstruct Entertainment, empresa que controla festivais como Sónar (Barcelona), Viña Rock, Arenal Sound, Monegros Desert e outros.

A Superstruct é controlada pela holding Providence Equity Partners, que, por sua vez, tem participação do fundo KKR (Kohlberg Kravis Roberts). Este fundo, segundo investigações, possui conexões comerciais com empresas envolvidas em assentamentos ilegais israelenses, como o site de classificados Yad2, além de relações com o grupo editorial Axel Springer, cuja política institucional inclui apoio explícito ao Estado de Israel.

A resposta da comunidade artística foi rápida e incisiva. Mais de 70 artistas e coletivos culturais cancelaram apresentações em protesto. Entre os nomes estão Arca, Juliana Huxtable, La Élite e outros. Em comunicado, os artistas declararam não querer “ser cúmplices da normalização de crimes de guerra e apartheid”.

A pressão também chegou ao poder público. O Ministro da Cultura da Espanha, Ernest Urtasun, declarou que o envolvimento de fundos com tais vínculos em festivais públicos ou apoiados pelo Estado é “profundamente preocupante”. Algumas prefeituras catalãs cancelaram convênios com festivais geridos pela Superstruct, enquanto iniciativas legislativas sobre transparência de financiamento cultural começaram a ser discutidas.

Antes mesmo das investigações, o premiê espanhol, Pedro Sanchez, fez um chamamento público à EBU sobre a revisão da participação de Israel no festival Eurovision.

Glastonbury 2025: Quando o Protesto Invade o Palco


O caso espanhol reverberou até o Reino Unido, onde o Festival de Glastonbury (realizado no último final de semana) se tornou palco de um dos episódios mais polêmicos da história recente do evento.

Durante sua apresentação, a banda britânica Bob Vylan, conhecida por suas letras de cunho político, liderou o público em um coro que dizia “Death to the IDF” (Morte às Forças de Defesa de Israel), seguido de gritos de “Free Palestine”. A performance foi transmitida ao vivo pela BBC, que posteriormente emitiu um pedido de desculpas e afirmou que “não deveria ter transmitido o conteúdo na íntegra”.

A situação provocou uma investigação criminal por parte da polícia britânica, que classificou o episódio como potencial violação da ordem pública. O governo britânico, por meio do Primeiro-Ministro Keir Starmer, condenou veementemente os atos como “discursos odiosos”. Já os Estados Unidos revogaram os vistos da banda Bob Vylan, alegando incitação à violência e “expressões incompatíveis com valores democráticos”.

Outra apresentação polêmica foi da banda irlandesa Kneecap, que prestou homenagem ao grupo ativista Palestine Action — organização atualmente considerada extremista pelo governo britânico. Em outras ocasiões, membros do Kneecap também foram criticados por portar símbolos do Hezbollah, classificado como organização terrorista em território britânico. Os membros negaram a acusação.

Apesar das controvérsias, milhares de fãs no festival empunharam bandeiras palestinas, distribuíram panfletos e transformaram Glastonbury em um palco simbólico da resistência global. O festival se viu pressionado a rever políticas de curadoria, financiamento e até mesmo os seus patrocinadores.

Cultura e Geopolítica: Um Palco em Conflito

Os casos da Superstruct e de Glastonbury levantam um debate sobre a arte e a denúncia: como as manifestações demonstram a insatisfação popular sobre os governantes, festivais e até mesmo as emissoras, em meio a uma crise humanitária urgentíssima, e o que pode ser considerado, de fato, o discurso de ódio? Até onde a cultura pode manter neutralidade quando há financiamento associado a regimes opressores?

Para ativistas pró-Palestina, a questão é ética: aceitar patrocínios de fundos ligados à repressão e à ocupação territorial é silenciar sobre crimes de guerra e antisemitismo. Já para críticos do boicote, como entidades sionistas e parte do governo britânico, certos atos ultrapassam os limites do ativismo e colocam em risco a segurança de minorias, promovendo o antissemitismo disfarçado de engajamento.

A tensão entre esses lados está cada vez mais visível no mundo cultural. Festivais como o Primavera Sound, por exemplo, já começaram a revisar contratos com patrocinadores. Há ainda uma demanda crescente por transparência na origem dos financiamentos culturais e uma reformulação de políticas editoriais em rádios e transmissões públicas.

De Malmö a Madri. De Barcelona a Glastonbury. A linha entre cultura e política nunca foi tão visível — ou tão tênue. O ano de 2025 já pode ser lembrado como aquele em que a arte europeia se viu obrigada a olhar no espelho, escolher um lado e responder: o que significa fazer parte de um festival em tempos de guerra?

Em 2025, a cultura deixou definitivamente de ser vista como território neutro. Os palcos agora refletem — e amplificam — as batalhas ideológicas do nosso tempo.

Seja no silêncio de uma performance cancelada, no grito de um ativista no palco ou na retirada de um patrocinador controverso, a arte hoje é convocada a se posicionar. E o público, mais atento do que nunca, exige coerência, justiça e responsabilidade.

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