O considerado pai dos festivais europeus, infelizmente, tem a chance de sair da sua cidade natal. Isso porque nos bastidores do Festival de Sanremo, uma verdadeira tempestade institucional está acontecendo — com a forte participação da FIMI (Federação da Indústria Musical Italiana) e da prefeitura local.
A decisão da Ligúria que prejudicou a Rai
Tudo começou quando o Tribunal Administrativo da Ligúria determinou que a organização do festival — oficialmente chamado de Festival della Canzone Italiana — não pode mais ser entregue diretamente à RAI sem uma licitação pública. Isso significa que, a partir de 2026, o evento será alvo de um edital de concorrência para definir quem terá o direito de realizá-lo. Para este biênio, a Rai venceu por W.O.
A prefeitura de Sanremo, dona da marca oficial, já sinalizou que o novo edital exigirá contrapartidas maiores da emissora vencedora: além de aumentar o investimento (de cerca de €5 milhões para €6,5 milhões por ano), será obrigatório realizar mais transmissões televisivas a partir da cidade.
FIMI busca intervir e irrita Rai
Porém, o que era uma disputa local ganhou novos contornos quando a FIMI declarou apoio à abertura do processo licitatório. Para Enzo Mazza, CEO da federação, é hora de democratizar o festival e incluir as gravadoras e editoras musicais nas decisões sobre seu futuro. A proposta foi reforçada por uma campanha do programa “Striscia la Notizia” (Mediaset), que há meses denuncia a exclusividade da RAI como “injusta e pouco transparente”.
Com o peso da FIMI, a briga deixou de ser apenas entre poder público e estatal. Agora, o setor fonográfico italiano está diretamente envolvido e defende uma reformulação completa no modelo de organização de Sanremo.
A própria FIMI já contestou sobre os custos da licitação, que fizeram com que o custo artístico aumentasse em 25% e com riscos para a Noite dos Duetos do festival, considerados “absolutamente insuficientes”.
O plano B da Rai: vai ter festival! E a busca do resgate da marca
Irritada com a situação, a RAI já estuda um plano alternativo: criar um novo festival, nos mesmos moldes do Sanremo original, mas sob outro nome e, talvez, em uma nova cidade — com Turim como principal candidata. A cidade já foi sede do Eurovision 2022, tem infraestrutura adequada e apoio político.
Esse “festival alternativo” manteria o modelo clássico — apresentações ao vivo, votação popular e escolha do representante italiano para o Eurovision — mas não poderia usar a marca “Sanremo”. A RAI tentaria, assim, preservar o conteúdo e o prestígio, mesmo que o nome ficasse com a cidade original.
O cenário mais polêmico e cada vez mais provável, após o biênio 2026 e 2027, é este: dois festivais italianos disputando o mesmo público na mesma época.
Um, realizado pela nova emissora vencedora da licitação (pelas regras da própria, estará entre Rai e Mediaset), manteria o nome “Festival della Canzone Italiana” e seguiria em Sanremo.
O outro, promovido pela RAI, aconteceria em outro local, com o mesmo formato tradicional — e, possivelmente, maior audiência e legitimidade por seu histórico.
Por trás dessa disputa está uma questão profunda: quem é o verdadeiro dono do Festival de Sanremo? A cidade, por ter a marca e a tradição? A RAI, que construiu o formato e popularizou o evento por décadas? Ou o mercado musical, que hoje busca mais espaço e representatividade?
O que antes parecia impensável agora é uma possibilidade concreta. O Festival de Sanremo, em sua forma atual, pode estar vivendo seus últimos dias. A entrada da FIMI no debate só mostra que o setor musical quer mais voz e menos monopólio — e que a cultura italiana, como todas as tradições, também está sujeita às pressões do tempo, da política e do mercado.
Nos próximos meses, as decisões da prefeitura e da RAI definirão se Sanremo seguirá sendo uma só… ou se o país terá, em breve, duas versões do festival mais querido da música italiana.
