A recente controvérsia envolvendo a nova diva pop estadunidense Taylor Swift e o ícone mexicano Luis Miguel trouxe à tona, mais uma vez, o debate sobre os limites entre inspiração e plágio na indústria musical. Fãs detectaram semelhanças notáveis entre a melodia da nova canção de Swift, “Opalite” (do álbum “The Life of a Showgirl”), e o clássico de Luis Miguel dos anos 80, “1+1=2 Enamorados” (também conhecido como “Dos Enamorados”). Embora não haja confirmação oficial de plágio ou processo legal iniciado por Luis Miguel, a polêmica levanta questões mais profundas sobre a originalidade na música contemporânea.
A similaridade melódica entre “Opalite” e “1+1=2 Enamorados” foi amplamente discutida nas redes sociais e mídias especializadas. Fãs e críticos apontaram que a introdução e o tom geral das duas faixas possuem uma surpreendente consonância. É importante notar que, no direito autoral musical, a definição de plágio é complexa, exigindo mais do que mera semelhança; geralmente, é necessário provar que o artista teve acesso à obra original e que a cópia de elementos essenciais é substancial. No entanto, o debate em si serve como um sintoma de uma crise de originalidade que se manifesta há décadas na música pop.
Casos emblemáticos que envolveram até o Brasil
O caso de Taylor Swift e Luis Miguel é apenas a mais recente adição a uma longa lista de disputas que sinalizam uma crise de originalidade no cenário musical. A repetição de melodias, progressões de acordes e estruturas se torna cada vez mais comum, levantando a dúvida se os grandes sucessos atuais são resultado de inspiração ou de uma esgotamento criativo. Casos famosos, como a condenação de George Harrison por “plágio inconsciente” com a canção “My Sweet Lord” (semelhanças com “He’s So Fine”), ou o processo enfrentado por Adele por supostamente copiar a melodia de “Mulheres” de Toninho Geraes em “Million Years Ago”, mostram que o problema afeta artistas de todos os calibres e gêneros.
Outros exemplos notórios incluem a disputa entre Rod Stewart e Jorge Ben Jor por “Da Ya Think I’m Sexy?”, que plagiava “Taj Mahal”, resultando em um acordo extrajudicial. O caso do Led Zeppelin com “Stairway to Heaven”, apesar de terem sido absolvidos, e o acordo confidencial de Coldplay com Joe Satriani por “Viva La Vida”, evidenciam que até mesmo as obras tidas como “clássicos” não escapam da mira das acusações. Esses processos, sejam eles resolvidos com acordos, vitórias judiciais ou condenações, ilustram o desafio de criar algo verdadeiramente único em um universo sonoro já tão explorado, onde a lei de direitos autorais luta para acompanhar a fluidez da criação artística.
A IA como uma leve Ponta do Iceberg
A chegada da Inteligência Artificial (IA) na criação musical é frequentemente apresentada como a ameaça definitiva à originalidade, mas ela é, na verdade, apenas a ponta do iceberg de um problema estrutural. Ferramentas de IA generativa, como Udio e Suno, podem criar canções a partir de comandos de texto ou clonar vozes de artistas, levantando complexas questões sobre autoria, ética e direitos autorais.
O medo de que a IA crie uma “avalanche de músicas não originais” é uma preocupação legítima entre produtores. Porém, a realidade está sendo escancarada quando jovens que queriam aprender música e tiveram que seguir carreiras na área de TI, realizaram uma avalanche de ideias como uma música de Funk carioca virar hit de Disco Music (Blow Records) ou uma cantora digital ser a mais nova Mamona Assassina (Tocanna).
O verdadeiro cerne da questão reside no modelo capitalista da indústria, que favorece a produção em escala e o “clichê”, em detrimento da experimentação e da originalidade autêntica. A IA, ao ser treinada em vastos bancos de dados de músicas existentes (muitas vezes protegidas por direitos autorais), tende a reproduzir padrões e estilos de sucesso, potencializando a falta de novidade. Em vez de ser a causa raiz, a IA é um espelho que reflete e amplifica a dependência da indústria por fórmulas testadas e a dificuldade de proteger a criação humana contra a “cópia” automatizada.
A crise de originalidade, portanto, não é uma novidade trazida pela tecnologia, mas sim uma condição crônica da arte de massa. A pressão por hits e a segurança do que já foi validado comercialmente incentivam a repetição. A batalha contra o plágio, seja humano ou algorítmico, continuará a definir o valor e o futuro da criação musical.
