Manoel Carlos e a invenção de um Brasil íntimo: o Leblon e as Helenas como projeto simbólico

Manoel Carlos transformou a teledramaturgia com narrativas intimistas, centradas nas mulheres e emoções.

A trajetória de Manoel Carlos na teledramaturgia brasileira é marcada por uma escolha estética e política singular: ao invés de narrar grandes épicos sociais ou apostar no espetáculo da ação, ele construiu uma obra centrada na intimidade, na escuta e nos conflitos emocionais do cotidiano. Seu foco nunca foi apenas contar histórias, mas elaborar um modo de ler e ver o Brasil — e esse modo passa, quase sempre, por um mesmo território simbólico: o Leblon.

O Leblon de Manoel Carlos não é apenas um mero bairro carioca. Ele funciona como um recorte social, um espaço de projeção de um Brasil idealizado, onde os conflitos são elaborados pela palavra, onde há tempo para pensar, amar, errar e se reconstruir. Trata-se de um Brasil em que a violência estrutural, o caos urbano e a desigualdade radical ficam, em grande parte, fora de quadro. Não porque não existam, mas porque o autor opta por não torná-los o centro de sua dramaturgia.

Esse gesto é ambivalente: ao mesmo tempo em que oferece um espaço de respiro, também produz apagamentos. O urbanna celebrará a trajetória de 92 anos do autor que leu uma parte do Brasil e o traduziu, via Leblon.


Manoel Carlos faleceu aos 92 anos

O autor das tramas que, sem sombra de duvidas, transformaram o Brasil faleceu ontem (10/01), aos 92 anos no Rio. Embora nascido em São Paulo, o popular Maneco se estabeleceu no Rio graças ao talento no teatro, aos estudos e aos grandes trabalhos realizados para as TVs Tupi e Record, em São Paulo.

Ele foi um dos autores mais emblemáticos da teledramaturgia brasileira, conhecido principalmente por suas novelas realistas, intimistas e profundamente centradas nas relações humanas. Sua trajetória é marcada por uma atenção especial ao cotidiano, às pequenas tensões da vida urbana e aos dilemas morais, afetivos e existenciais de personagens comuns — especialmente mulheres.

Foi na Globo, a partir dos anos 1970, que consolidou seu estilo próprio. Foi um dos pais da telerevista Fantástico, em 1973. Entre suas obras mais famosas estão a chamada Saga das Helenas — Baila Comigo (1981), Felicidade (1991), História de Amor (1995), Laços de Família (2000), Mulheres Apaixonadas (2003), Páginas da Vida (2006), Viver a Vida (2009) e Em Família (2014).


A utopia emocional, via Leblon, e o poder das Helenas

Nas novelas de Manoel Carlos, o espaço urbano não é neutro. Ele é um personagem silencioso. O Leblon aparece como um território da convivência: pessoas caminham, sentam em cafés, se encontram por acaso, conversam longamente sobre suas dores e dilemas. O tempo parece desacelerado. Há um investimento na contemplação e na escuta — elementos raros em um mundo midiático regido pela pressa e pelo choque.

Esse espaço constrói uma ideia de Brasil possível: um país onde os conflitos não são resolvidos pela violência, mas pela palavra; onde o sofrimento não é espetacularizado, mas examinado; onde o cotidiano importa.

Porém, esse Brasil é socialmente situado: trata-se de um recorte de classe média alta, branca, intelectualizada, com acesso a bens simbólicos e materiais que permitem esse tipo de elaboração emocional. Assim, o Leblon de Manoel Carlos é menos um retrato fiel e mais um projeto imaginário — uma utopia afetiva.

Dentro desse projeto narrativo, as Helenas ocupam um papel central. Elas não são apenas protagonistas; são dispositivos simbólicos.

Nas suas obras desde 1981, a Helena aparece como uma mulher que concentra em si as tensões do mundo: amor, maternidade, envelhecimento, desejo, culpa, independência, sacrifício, frustração. Cada Helena é diferente, mas todas compartilham uma mesma função: ser o eixo moral e emocional da narrativa.

A repetição do nome não é gratuita. Ela cria um arquétipo. Helena não é apenas uma pessoa; é uma pergunta constante: como ser mulher em um mundo que exige, ao mesmo tempo, força, doçura, autonomia e abnegação?

Os limites dos poderes das Helenas

As Helenas são construídas como figuras de empatia. Elas erram, sofrem, hesitam, amam demais, às vezes se anulam, às vezes se reinventam. São mulheres que pensam sobre si mesmas — e isso é fundamental. Manoel Carlos não as trata como funções narrativas, mas como sujeitos em conflito.

Elas representam uma transição cultural: da mulher submissa à mulher que tenta se entender como sujeito autônomo, ainda que carregue contradições. São personagens atravessadas por dilemas contemporâneos: maternidade tardia, relações não convencionais, culpa por desejar mais da vida, conflitos entre carreira e afeto.

Nesse sentido, as Helenas funcionam como termômetros emocionais da sociedade. O que elas vivem reflete o que muitas mulheres vivem, mas raramente veem elaborado com profundidade na televisão.

No entanto, é preciso reconhecer os limites dessa construção. Assim como o Leblon, as Helenas também pertencem a um recorte social muito específico. Elas quase sempre têm acesso à educação, redes de apoio, tempo para reflexão, conforto material. Seus dramas são intensos, mas raramente atravessados pela precariedade extrema.

Isso cria um paradoxo: Manoel Carlos dá centralidade à subjetividade feminina, mas o faz dentro de um universo altamente privilegiado. Suas mulheres sofrem, mas sofrem com vista para o mar.

Essa escolha gera identificação em muitos, mas também produz exclusão simbólica. Muitas mulheres brasileiras não se veem nessas narrativas.

A combinação Leblon e Helenas: entre pontos fortes e fracos, temos aqui o Brasil idealizado por Maneco

Quando combinamos o espaço (Leblon) e o arquétipo (Helena), entendemos melhor o projeto de Manoel Carlos: ele não quer mostrar o Brasil como ele é em sua brutalidade, mas como ele poderia ser em sua delicadeza.

É um Brasil onde as mulheres têm centralidade narrativa, onde os conflitos são psicológicos, não apenas sociais, e onde o amor, apesar de falho, ainda é um valor estruturante.

Isso não é inocente: é uma tomada de posição estética. Manoel Carlos parece afirmar que, em um país marcado por rupturas, desigualdades e violência, é preciso também criar narrativas de cuidado, escuta e elaboração emocional.

A obra de Manoel Carlos não deve ser lida apenas como entretenimento, mas como um projeto simbólico de Brasil. Um Brasil íntimo, reflexivo, civilizado, ainda que profundamente idealizado. O Leblon funciona como o palco dessa utopia, e as Helenas como suas protagonistas morais.

Ao insistir nesse modelo, ele constrói um imaginário que acolhe, mas também limita. Oferece conforto, mas também oculta. Dá voz às mulheres, mas dentro de um recorte específico de mundo.

Talvez sua maior contribuição seja essa: lembrar que o cotidiano, os afetos e as dúvidas também são matéria política — mesmo quando narrados sob o sol do Leblon.

Graças a Saga das Helenas, cujas obras colocaram literais dedos nas feridas e ainda televisionadas – quando não se pautavam nas redes sociais, que pudemos ver o Brasil ser um piloto mundial nas leis de proteção as crianças, idosos, mulheres e portadores de deficiências. Deste modo, precisamos dizer que Maneco foi um dos grandes personagens do Brasil neste século. Aplausos!

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