O Brasil é Tetra! Tetra campeão no Globo de Ouro, uma das prestigiadas premiações do universo cinematográfico — e que é um bom termômetro ao maior deles, o Oscar.
Isso graças as duas vitórias ao filme “O Agente Secreto“, ambientado em Recife, numa época dos traumas sobre a ditadura militar capitaneadas pelo gigante e único Wagner Moura. Ele se junta a Fernanda Torres como os primeiros brasileiros vencedores do premio de Melhor Ator em Drama (ano passado, ela venceria o prêmio por “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles).
Neste post, vamos relembrar um pouco sobre o que se ambienta o filme, a importância da leitura do Brasil nos filmes de Kleber e quais as possíveis concorrências num ano extremamente importante ao mundo audiovisual e como uma vitória de “O Agente Secreto” pode dar uma sensação de respiro em meio à um sufoco iminente.
Do que se ambienta “O Agente Secreto“?
O Agente Secreto revela, de forma exponencial, a potência crítica e artística do cinema brasileiro contemporâneo — em meio aos bastidores clamando por demandas sobre a regulação do streaming no país sem prejudicar as obras autorais e locais. Sob a direção de Kleber Mendonça Filho (“O Som ao Redor“, “Bacurau” e “Aquarius“), o filme não apenas marca uma das maiores conquistas do cinema nacional nos últimos anos (com premiações em Cannes de melhor direção e melhor ator para Wagner Moura), como se coloca como um veículo estético de reflexão sobre as dinâmicas sociais do Brasil e as feridas ainda abertas da nossa história recente.
Mendonça Filho nunca filmou o Brasil pelo óbvio. Seu cinema se constrói nas frestas: nos ruídos, nos corredores, nos pequenos gestos, nos espaços aparentemente banais. Recife não é cenário — é organismo vivo (tal como Leblon foi para Manoel Carlos). Em O Agente Secreto, essa abordagem se aprofunda: a cidade não apenas abriga a história, ela respira o trauma.
A ditadura militar, aqui, não surge como aula de história. Ela aparece como atmosfera. Está no silêncio das ruas, nos olhares que evitam contato, nas conversas interrompidas, no som distante do rádio, na sensação constante de ameaça. O terror não é espetacular; é cotidiano.
Esse é um dos grandes méritos de Kleber: entender que a política não vive apenas nos grandes eventos, mas nas relações miúdas, nos espaços domésticos, na memória sensorial. Ele filma não o acontecimento, mas o efeito dele sobre as pessoas.
Assim como em “O Som ao Redor“, “Aquarius” e “Bacurau“, há uma obsessão por como o passado insiste em se infiltrar no presente. O Brasil que ele filma não é um país resolvido — é um país em disputa consigo mesmo.
Em “O Agente Secreto“, essa disputa ganha contornos ainda mais densos. Não se trata apenas de sobreviver, mas de lembrar sem enlouquecer. De existir sem ser apagado.
Mas para construir esse tipo de cinema, não basta sensibilidade. É preciso método. E é aí que entra algo fundamental: a pesquisa.
Um detalhe que diz muito sobre Kleber não está apenas nos seus filmes, mas no modo como ele os constrói. Recentemente, o diretor compartilhou na rede BlueSky sua busca por registros sonoros das rádios do Recife dos anos 1970: locuções, vinhetas, previsões do tempo, timbres de microfone, jingles, intervalos.
Esse gesto parece pequeno. Mas ele é enorme.
Porque cinema não é só imagem. É atmosfera. É textura. É memória sensorial. Ao buscar esses materiais, ele não está apenas ilustrando um período — está tentando reconstruir uma forma de sentir o tempo.
Essa pesquisa revela algo essencial: a reconstrução do passado não se faz apenas com fatos, mas com sons, ritmos, silêncios, entonações. O Brasil da ditadura não era só repressão política — era também um país que ouvia rádio, que atravessava ruas, que conversava sussurrando, que fingia normalidade.
Pesquisar é um gesto político. Porque escolher o que lembrar é uma forma de resistir ao apagamento.
“O Agente Secreto” não é apenas um thriller, nem apenas um drama histórico. É uma obra sobre como a memória se infiltra no presente, sobre como o corpo guarda aquilo que a história oficial tenta apagar.
E talvez seja isso que torna esse filme tão necessário: ele não nos entrega respostas fáceis. Ele nos obriga a olhar. A sentir. A lembrar.
Num país que frequentemente prefere esquecer, esse é um ato radical.
O triunfo de Wagner Moura: se junta a Fernanda Torres como os primeiros brasileiros campeões do Globo de Ouro
Há atores que interpretam personagens. E há aqueles que habitam os personagens. Wagner Moura pertence ao segundo grupo. Em O Agente Secreto, ele não apenas dá corpo a Marcelo — um homem em fuga durante a ditadura militar —, mas transforma o próprio silêncio, o medo e a desconfiança em linguagem cinematográfica.
Moura constrói sua atuação a partir de microgestos: o olhar que hesita, a postura que nunca relaxa, a respiração sempre contida. Não há heroísmo, não há grandiloquência. Há humanidade em estado bruto. É isso que o torna um dos maiores atores brasileiros: sua capacidade de traduzir conflitos históricos em experiências íntimas.
Ao longo da carreira, Wagner sempre esteve associado a personagens que encarnam tensões sociais — do Capitão Nascimento ao jornalista exilado, do líder político ao homem comum atravessado pelo autoritarismo. Em O Agente Secreto, ele parece sintetizar tudo isso: não é apenas um indivíduo em risco, mas um corpo que carrega um país inteiro em suas cicatrizes.
Sua atuação não pede empatia; ela impõe escuta. E talvez seja esse o maior mérito: o espectador não assiste a Marcelo, ele é obrigado a sentir o peso de existir como ele.
E é justamente aí que o cinema de Kleber Mendonça Filho entrou em ação – e deu certo.
As concorrências possíveis para o filme: vamos poder sonhar de novo?
O Brasil olha para o Oscar como a Itália olha para aquele pênalti de Roberto Baggio: com uma mistura de obsessão e trauma. Ainda estamos lembrando das derrotas de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres? Sim, mas isso nunca as diminuiu no fato de serem Atrizes com A maiúsculo – e precisamos dizer o mesmo sobre as potenciais candidaturas de Moura e Mendonça Filho.
Aqui que vamos ter que prestar muita atenção: a concorrência é forte, feroz, e ao que tudo indica podemos ter Moura x DiCaprio para o Oscar de Melhor Ator. Outra coisa: o filme “Hamnet” contrariou todas as apostas e venceu para Melhor Filme de Drama (que estava encabeçado para ser “Pecadores“, estrelado pelo também potencial candidato Michael B. Jordan).
E aí que mora o risco, mas que vale a pena tentar: quando comparamos “O Agente Secreto” aos potenciais concorrentes ao Oscar, vemos um padrão onde muitos apostam em narrativas de trauma com linguagem mais direta, emocionalmente explosiva, com arcos de superação claros e momentos de catarse.
Pode não ser o caso do nosso filme sucessor de “Ainda Estou Aqui” e, também, não parece ser o caso do filme do DiCaprio: “Uma Batalha Após a Outra“. Aliás, se olhar os termômetros da bilheterias e das premiações (que são importantes indicativos para o Oscar), o nosso filme nacional está em vantagem.
Segundo análise da revista Variety, descrita pela BBC, dos vários filmes recentes voltados para o público adulto não alcançaram o sucesso esperado, entre eles “O Bom Bandido” e “Coração de Lutador“. E “Uma Batalha Após a Outra“ foi o pior de todos.
Ao mesmo tempo que este filme foi mal recepcionado nas bilheterias dos cinemas, também emergem o debate sobre a falta de regulamentação clara, justa e equilibrada ao streaming em nível mundial. Neste momento, a Warner (distribuidora destes dois filmes “Pecadores” e “UBAO“) está à venda e com disputas agressivas entre Netflix e Paramount (que pode vender a MTV). Junto as questões, também se debate, nos Estados Unidos, sobre como derrotar Donald Trump e seus asseclas.
Ou seja, preparem os cintos, os cronicamente onlines e as bases de dados: a titia não mente quando o assunto é temos concorrência das grandes este ano (e bora… Vitória!).
- Vitória é o clube de coração de Wagner Moura.

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