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PARTE I — DIA DA MULHER, VÉSPERA DE FESTIVAL
Dois Escândalos, uma Semana, uma Data
Em qualquer outro ano, a semana que antecede o Dia Internacional da Mulher seria marcada por balanços e declarações de intenção. Em março de 2026, porém, o mundo da música europeia viveu dois episódios concretos que tornaram o dia 8 de março simultaneamente um símbolo e um espelho. A dois meses do Eurovision Song Contest 2026, sediado em Viena e co-produzido pela emissora pública austríaca ORF, os bastidores do maior festival de música televisiva do mundo foram sacudidos por uma denúncia de assédio sexual e por uma declaração artística que empurrou uma jovem cantora para o centro de uma polêmica internacional.
No sábado, 7 de março, a sueca Felicia Eriksson venceu o Melodifestivalen com a música “My System” e garantiu o direito de representar a Suécia no Eurovision 2026. Horas depois, em entrevista ao jornal Omni e em seguida ao Aftonbladet, a artista de 24 anos foi direta: disse que não acha adequado que Israel participe do festival dado o contexto da guerra em Gaza, que chegou a cogitar não participar, e que tomou a decisão de ir exatamente para, nas suas palavras, garantir que Israel não vença. A emissora israelense KAN reagiu imediatamente, anunciando que estuda apresentar uma queixa formal à EBU por violação do código de conduta.
No domingo, 8 de março — Dia Internacional da Mulher —, a ORF informou que Roland Weißmann, seu diretor-geral de 57 anos, havia renunciado ao cargo com efeito imediato. A razão: uma funcionária da emissora havia formalizado uma acusação de assédio sexual contra ele. Weißmann nega as alegações. Seu advogado, Oliver Scherbaum, declarou que o cliente foi informado sobre a existência das acusações — supostamente referentes a um comportamento inadequado no início de seu mandato, em 2022 — e teve apenas alguns dias para decidir se renunciaria, sem ter sido informado precisamente sobre o teor dos fatos imputados. Para evitar danos à organização, Weißmann optou pela saída imediata. A diretora de rádio da ORF, Ingrid Thurnher, assumiu interinamente a liderança da emissora, que agora terá de conduzir a organização de um evento da magnitude do Eurovision sem seu principal executivo.
A coincidência de datas não é apenas simbólica. Ela revela como a violência e o assédio contra as mulheres não habitam apenas estatísticas ou relatórios institucionais: eles acontecem em tempo real, nos espaços de poder cultural que moldam a identidade europeia.
Felicia: A Artista que a Indústria Tentou Tornar Invisível
A trajetória de Felicia Eriksson até o palco do Melodifestivalen é, por si só, um retrato das dinâmicas de controle às quais mulheres jovens na indústria musical são submetidas. Entre 2022 e 2025, ela foi a voz por trás de Fröken Snusk, personagem criada pelo produtor Rasmus Gozzi que se tornou um fenômeno de streaming na Suécia: a música “Rid mig som en Dalahäst” acumulou mais de 80 milhões de reproduções no Spotify e ficou 70 semanas nas paradas suecas. Durante todo esse período, a identidade de Felicia foi cuidadosamente ocultada por uma máscara rosa — uma decisão do projeto, não da artista.
Em abril de 2025, Gozzi anunciou publicamente que Felicia havia sido substituída por uma nova cantora anônima. Ela acordou e descobriu que havia sido removida de todas as plataformas digitais associadas ao projeto que ela havia ajudado a construir. Em entrevistas posteriores, Felicia descreveu o impacto: esgotamento severo, crises de pânico, internações hospitalares, pensamentos suicidas, e a sensação de estar presa a um contrato que a obrigava a performar sob pena de arcar com perdas econômicas. A questão foi encerrada extrajudicialmente. Hoje, Felicia continua a usar uma meia-máscara no palco — desta vez por ansiedade social crônica, que ela mesma atribui em parte à pressão acumulada daqueles anos de anonimato forçado e exposição controlada.
É nesse contexto que suas declarações sobre Israel ganham uma camada adicional de significado. Uma artista que foi silenciada por contrato, que precisou lutar para ter seu próprio nome no palco, que chegou ao Melodifestivalen carregando marcas físicas e psicológicas da indústria, recusou-se a ser silenciada novamente quando confrontada com uma questão moral que a interpelava. A EBU, em nota divulgada no dia 10 de março, lembrou que o código de conduta proíbe que participantes “usem o Eurovision como plataforma para declarações políticas” e afirmou estar em contato com a SVT para garantir que Felicia seja informada sobre suas responsabilidades. A SVT, por sua vez, disse que a artista tem o direito de expressar suas opiniões — mas que isso não pode ocorrer no contexto das transmissões ou apresentações ligadas ao festival.
O que essa crise expõe é um paradoxo institucional: o mesmo festival que diz celebrar a unidade e a diversidade humanas silencia sistematicamente as vozes que tentam nomear o sofrimento do mundo real. E o faz com instrumentos jurídicos e regulatórios que, curiosamente, recaem com peso desproporcional sobre artistas mulheres — cuja ousadia fora do palco é quase sempre mais punida do que a de seus colegas homens.
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