PARTE II — O ASSÉDIO QUE NÃO PRECISOU ESPERAR O FESTIVAL
Roland Weißmann e a ORF: O Poder que Cai em Dia de Mulher
A demissão de Roland Weißmann da direção-geral da ORF é um caso que precisa ser lido com cuidado e sem pressa. Weißmann nega as acusações. Seu advogado afirma que ele não foi informado com precisão sobre os fatos que lhe foram imputados e que foi pressionado a renunciar em poucos dias. O processo de investigação foi prometido pelo Conselho de Fundação da ORF como “rápido e transparente”. Até que essa investigação conclua, a presunção de inocência é um princípio que precisa ser respeitado — e nesta redação será respeitado.
O que não precisa de investigação, porém, é a estrutura que torna esses episódios possíveis. A acusação — de que um comportamento inadequado teria ocorrido ainda em 2022, no início do mandato de Weißmann — demorou quase quatro anos para ser formalizada. Isso não é uma anomalia: é um padrão documentado com exaustão na literatura sobre assédio em ambientes de trabalho, especialmente quando o acusado ocupa posições de alto poder institucional. A pesquisadora e especialista em segurança no trabalho Jennie Cole, em depoimento ao parlamento britânico sobre machismo na indústria da música, descreveu esse fenômeno com precisão: vítimas frequentemente aguardam anos antes de falar, calculando riscos de retaliação, de descrédito, de impacto na carreira.
No caso da ORF, a funcionária que apresentou a denúncia — cuja identidade não foi divulgada, preservando-se sua privacidade — teve sua coragem enquadrada pela instituição com a promessa de transparência. Mas a narrativa pública foi imediatamente disputada: a defesa de Weißmann descreveu a reação da emissora como “completamente inadequada e excessiva” e sugeriu que a renúncia forçada ocorreu às vésperas do processo eleitoral para a nova direção da ORF — cujas candidaturas serão abertas em maio, exatamente quando o Eurovision acontece. Esse elemento cronológico, que o advogado levantou como possível motivação política, não invalida a acusação, mas diz muito sobre o ambiente de poder em que ela emergiu.
O timing — no Dia Internacional da Mulher, a dois meses do maior evento cultural que a emissora já sediará — oferece uma lente privilegiada para entender como o assédio opera: em silêncio, nos bastidores, durante anos, até que o silêncio se torna insustentável. A mulher que denunciou não esperou por um momento conveniente. Ela denunciou quando havia provas suficientes e condições mínimas de segurança. O Conselho da ORF confirmou que há materiais escritos, de áudio e vídeo relacionados ao caso. Ingrid Thurnher, uma das jornalistas mais experientes da emissora, assume agora uma instituição em crise, a caminho de um dos maiores eventos de sua história.
Um Festival que Não Controla seus Próprios Bastidores
Analisados em conjunto, os dois episódios desta semana — as declarações de Felicia e a renúncia de Weißmann — apontam para uma falha sistêmica nas estruturas de governança do Eurovision e de suas emissoras parceiras. O festival investe enormemente em regulamentar o que acontece no palco: há código de conduta para artistas, protocolos de duty of care implementados após os escândalos de 2024, zonas restritas de filmagem nos bastidores. Mas quem regula o que acontece nos corredores de poder das emissoras públicas que organizam e co-produzem o evento?
A EBU pode publicar notas reafirmando o código de conduta sempre que uma artista faz uma declaração pública. Mas não há uma estrutura equivalente — com a mesma rapidez e contundência — para responder quando o próprio executivo de uma emissora parceira é acusado de assédio sexual por uma funcionária. Isso não é uma crítica à investigação da ORF, que ainda está em curso. É uma constatação sobre onde o poder institucional coloca seu peso: mais facilmente sobre as vozes das artistas do que sobre os comportamentos de quem as contrata e transmite.
A Finlândia, que possui a legislação de igualdade de gênero mais avançada da União Europeia, apresenta a maior taxa de assédio sexual relatado no ambiente de trabalho entre os países do bloco — 55%, segundo levantamento da Agência dos Direitos Fundamentais da UE. O dado é perturbador exatamente porque desmonta a equação simplista entre legislação avançada e proteção real. A cultura institucional, a distribuição do poder e os mecanismos de denúncia acessíveis determinam mais do que qualquer norma escrita se uma mulher conseguirá, efetivamente, falar.
A parte 3 da reportagem encontra-se na sequência. Avisamos de antemão que, ao testemunhar algo que remeta à violência de gênero, ligar para 180.

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