Palco e Bastidores: Eurovision 2026, A voz das artistas e o assédio que a Europa ainda não consegue silenciar

Os bastidores do maior festival de música televisiva do mundo foram sacudidos por uma denúncia de assédio sexual e por uma declaração artística que empurrou uma jovem cantora para o centro de uma polêmica internacional.

PARTE III — OS NÚMEROS E O PARALELO COM O BRASIL

A Europa que os Dados Revelam

Em novembro de 2024, a maior pesquisa já realizada sobre violência de gênero na União Europeia foi publicada conjuntamente pela Agência dos Direitos Fundamentais (FRA), pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE) e pelo Eurostat. Foram ouvidas 114.023 mulheres entre 18 e 74 anos nos 27 estados-membros, em um levantamento conduzido entre 2020 e 2024. O resultado foi desolador em seus números — e ainda mais desolador pelo que não mudou.

Uma em cada três mulheres na UE já sofreu violência física ou sexual desde os 15 anos. A taxa em 2024 era de 30,7% — praticamente idêntica aos 31,4% registrados em 2014. Uma em cada três mulheres foi vítima de assédio sexual no trabalho. Entre as jovens de 18 a 29 anos, a proporção sobe para duas em cada cinco. Apenas uma em cada oito mulheres que sofreram violência registrou queixa à polícia. Uma em cada cinco foi vítima de stalking. Sirpa Rautio, diretora da FRA, sintetizou os dados com uma frase que dispensa comentários: “Em 2024, a segurança das mulheres na UE ainda não pode ser garantida.”

Esses dados existem no mesmo continente em que o Eurovision acontece. Nas mesmas cidades, nos mesmos ambientes de trabalho, nos mesmos corredores de poder das emissoras que constroem o festival. Cinco países da UE — Tchequia, Hungria, Letônia, Lituânia e Eslováquia — ainda não ratificaram a Convenção de Istambul, o principal instrumento internacional de combate à violência de gênero. A diretora da FRA identificou com precisão onde a cadeia falha: a implementação das leis existentes é desigual e subfinanciada, e “é aí que frequentemente falha”.

Brasil: Outro Espelho, Outra Intensidade

O Brasil, que acompanha o Eurovision com crescente interesse, atravessa uma crise própria de proporções históricas. O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2024 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 1.492 feminicídios no ano — 97% cometidos por homens. Desse total, 63,6% das vítimas eram negras, 64,3% foram mortas dentro de suas próprias casas, e oito em cada dez foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros. Em 2025, os dados preliminares indicam pelo menos 1.470 feminicídios — a equivalência de quatro mulheres assassinadas por dia.

No campo dos crimes sexuais, o Brasil registrou em 2024 o maior número de sua série histórica: 87.545 ocorrências de estupro e estupro de vulnerável, o equivalente a uma mulher estuprada a cada seis minutos. O stalking cresceu 18,2%; a pornografia não consentida, 13,1%. O Conselho Nacional de Justiça revelou que foram julgados 10.991 processos de feminicídio naquele ano — um aumento de mais de 225% em relação a 2020. Cerca de 100 mil medidas protetivas foram descumpridas, e 121 mulheres assassinadas estavam, no momento do crime, com medida protetiva ativa.

Comparar Brasil e Europa exige cautela metodológica: os sistemas de coleta de dados diferem, as definições legais variam, e os níveis de subnotificação são distintos. Mas a comparação é necessária porque desafia o mito da violência como fenômeno de “países subdesenvolvidos”. A diferença não é de natureza — é de intensidade e de visibilidade. O assédio que derrubou o diretor da ORF em Viena e a trajetória de exploração que marcou a carreira de Felicia na Suécia habitam o mesmo universo estrutural do feminicídio no Brasil. São pontos diferentes de um mesmo espectro de controle masculino sobre o corpo, a voz e a autonomia das mulheres.

Essa perspectiva comparada é fundamental para não deixar que o escândalo do Eurovision se transforme em exceção ou curiosidade. Ele é, ao contrário, mais um dado em uma série histórica que a Europa ainda resiste em chamar pelo nome correto: emergência.


CINCO PERGUNTAS URGENTES PARA A EUROPA

O continente que proclama a igualdade precisa olhar para seus bastidores com a mesma nitidez com que ilumina seus palcos.

1. Quando a Europa vai tratar a violência de gênero como a emergência que os dados mostram que ela é?


Em uma década, a taxa de violência de gênero na UE caiu menos de um ponto percentual. Cinquenta milhões de mulheres vivem sob essa realidade. Se qualquer outro fenômeno atingisse essa proporção da população com tão pouca variação ao longo de dez anos, seria tratado como crise de saúde pública. A Europa precisa responder honestamente por que a violência contra as mulheres não recebe a mesma urgência política, orçamentária e comunicacional.

2. Por que o Eurovision regulamenta o que artistas dizem no palco, mas não estrutura proteção equivalente para as mulheres que trabalham fora dele?

A EBU respondeu em horas às declarações de Felicia sobre Israel. A mesma celeridade não existe para garantir ambientes seguros às funcionárias das emissoras parceiras. O caso da ORF aconteceu a dois meses do festival e levou quatro anos para ser formalizado — não por negligência da vítima, mas pela estrutura de poder que torna o silêncio mais seguro do que a denúncia. Regulamentar discursos artísticos com mais eficiência do que comportamentos abusivos diz muito sobre onde o poder institucional coloca seu peso.

3. Como a masculinidade tóxica se reproduz e se normaliza nas estruturas das grandes instituições culturais europeias — e quem tem interesse em mantê-la invisível?

A trajetória de Felicia Eriksson é um exemplo concreto: anos de trabalho sob contrato que limitava sua identidade, sua voz e sua autonomia, encerrados de forma traumática quando se tornou substituível para o projeto. Esse modelo — artista mulher como recurso descartável controlado por produtor homem — não é exceção na indústria musical. Ele é a norma que a indústria raramente nomeia porque é lucrativa. Acordos de não divulgação, contratos abusivos e o silêncio de gravadoras e emissoras são os instrumentos com os quais o machismo se perpetua de forma estrutural.

4. Por que cinco países da União Europeia ainda não ratificaram a Convenção de Istambul — e o que isso revela sobre a real prioridade política da proteção às mulheres?

Tchequia, Hungria, Letônia, Lituânia e Eslováquia alegam, com frequência, que as definições da Convenção de Istambul conflitam com concepções tradicionais de família ou gênero. O que essa recusa diz sobre como esses estados enxergam suas cidadãs? A Europa que se apresenta ao mundo como guardiã dos direitos humanos não pode continuar tolerando essa hipocrisia interna, especialmente quando os dados mostram que a violência nestes países não é menor do que nos signatários da convenção.

5. Como Brasil e Europa podem aprender reciprocamente — e conjuntamente — a transformar leis em proteção real para as mulheres?

O Brasil tem a Lei Maria da Penha, citada como referência internacional, e bate recordes anuais de feminicídio. A Europa tem décadas de políticas de gênero e taxas de violência estagnadas. Os dois contextos ensinam que o problema não está nas normas escritas, mas na implementação, no financiamento, na cultura institucional e no comprometimento político real. Uma cooperação que inclua não apenas intercâmbio de legislação, mas de metodologias de educação não-sexista, modelos de suporte às vítimas e campanhas de desconstrução da masculinidade tóxica pode ser o passo que ainda falta. O machismo não tem passaporte. A resposta a ele também não pode ter.


O festival começa em maio. A luta começa todos os dias — e não termina quando as câmeras se apagam.


Fontes:

Fórum Brasileiro de Segurança Pública — 19º Anuário (2024-2025) | Agência dos Direitos Fundamentais da UE — FRA Survey on Gender-Based Violence (2024) | Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE) | Reuters, Euronews, Aftonbladet, EurovisionFun, ESC Insight, That Eurovision Site — março de 2026.

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