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Cronicas

Quando o universo dos poderosos contaminou o cenário musical

14/09/2026 · 8 min
dj station in the club

De um dos símbolos da noite underground de São Paulo ao “Vorcaroween”: quando a música deixa de ser apenas trilha sonora e passa a fazer parte da arquitetura do poder.

Olha, há alguma coisa particularmente simbólica em imaginar o subsolo do Madame Satã recebendo uma festa privada para alguns dos homens mais poderosos do país.

Não porque o Madame Satã seja um lugar proibido para os ricos. Nem porque artistas muito famosos não possam tocar em festas privadas. Muito menos porque a música eletrônica deva ser separada de quem tem dinheiro para contratá-la.

A questão que muitos estão abordando nos posts e vídeos é acerca de quem ocupa um espaço cultural, com qual finalidade e o que acontece quando o dinheiro que normalmente circula ao redor da música passa a determinar também os seus espaços, suas relações e, eventualmente, até aquilo que pode ou não ser visto.

E este Madame Satã não é uma simples casa noturna dos paulistanos. Ela carrega uma história de mais de 4 décadas, no Bixiga, abrigando desde seus inícios: Rita Lee, Marisa Orth, Kid Vinil, RPM, Titãs, Ira! e até Legião Urbana. Era o reduto das comunidades do rock, do underground que se encontraram ali como um ritual de mostrar que estavam ali, vivos, a celebrar numa São Paulo que, de dia, era careta, e a noite mostrava suas mil e uma faces.

Só que o espaço recebeu, num 31 de outubro de 2023, um evento privado que hoje estamos conhecendo detalhes mais profundos e sórdidos que, se calhar, vão parar o país amanhã (15 de setembro de 2026).

O evento, associado ao então banqueiro Daniel Vorcaro (do caso Master), ganhou nas redes o apelido de “Vorcaroween”. Segundo reportagens baseadas em documentos da investigação da Polícia Federal, aproximadamente 120 mulheres e 20 homens teriam participado da festa. Os celulares foram recolhidos na entrada e o evento tinha justamente a característica que hoje parece mais irônica: deveria permanecer longe dos olhos do público.

E no meio daquele subsolo do underground paulistano, vieram três nomes considerados do suprassumo da música eletrônica atual: Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture.

Ou seja, não era uma simples festa de Halloween, era maior ainda (e quem cobre os bastidores precisa ficar de olho nisso para já). Estamos a testemunhar casos onde poderosos ditam quem vai poder tocar até no Madame Satã e quem será jogado às traças do “cancelamento” midiático e de streamings.

Quando o subsolo virou o camarote

O Madame sempre foi associado à cultura alternativa das noites paulistanas. Onde as pessoas que não se encontraram num mundo “dos caretas” se reuniram numa espécie de comunhão.

Ser apontado como o local de um evento, capitalizado por um “dos caretas” que comandou o país (em termos financeiros) faz com que a ironia seja percebível a olhos nus. Mas, sabendo do pouco falado “Custo São Paulo”, era entendível que o Madame precisasse daquele dinheiro para poder sobreviver em meio aos caos da especulação imobiliária — que aflige vários paulistanos que buscam manter os bairros vivos e até mesmo a cultura noturna.

E o universo do underground sempre teve uma relação complicada com o dinheiro. Quem recebia era chamado de “traidor”, além do fato histórico de sua identidade ser um contraponto aos ambientes mais capitalistas como o clássico e, já encerrado, Bahamas.

A própria Madame Underground afirmou que o imóvel foi alugado a uma agência ou produtora terceirizada e que não houve negociação direta com Vorcaro. Segundo a casa, a organização, a lista de convidados e a condução do evento eram responsabilidade dos contratantes.

Um aluguel do Madame é legal, na área jurídica, mas na área simbólica, é um contrassenso. E essa distinção é importante.

Não há razão para transformar a casa e os DJs em culpados pelos atos de quem alugou o espaço.

Mas há razão para perguntar o que essa história revela sobre a transformação dos espaços culturais e da seleção artística. Porque o poder econômico não precisa comprar uma casa de shows para mudar aquilo que acontece dentro dela. Basta um evento e nada mais.

Quando o dinheiro escolhe o cast artístico

Antes de iniciar, cabe repetir: Não há razão para transformar a casa e os DJs em culpados pelos atos de quem alugou o espaço.

É certo dizer que foi uma enorme coincidência a participação destes DJs, em um evento privado (agora, de interesse público). E é certo dizer que os questionamentos fiquem mais interessantes: se na industria cultural, pode-se fechar contratos para cast artistico, alugar espaços até inimagináveis quando se tem dinheiro, a pergunta é quem consegue comprar uma experiência cultural que a maioria das pessoas sequer poderia imaginar?

Enquanto isso, do lado de fora, existe toda uma indústria musical tentando sobreviver de ingressos, festivais, pequenos clubes, cachês apertados, produção independente e divulgação nas redes sociais.

E quando alguém tenta contar a fábula, mas é banida do Instagram?

Daí temos a parte mais perturbadora: a de quem queria contar uma história de fábulas, mas que virou o maior pesadelo da vida dela.

Ana Raquel Ribeiro trabalhava com conteúdo sobre música eletrônica e havia transformado seu perfil no Instagram em uma atividade profissional. Em novembro de 2023, publicou um vídeo relacionado à esta festa no Madame Satã e teve sua conta derrubada, sabe-se lá o motivo.

Que agora, mais de 2 anos depois, foi revelado. Documentos analisados pela Polícia Federal revelaram mensagens em que Vorcaro pedia a um interlocutor que derrubasse a publicação de Ana. Segundo a BBC, a mensagem dizia para “derrubar” o post, e posteriormente a conta de Ana acabou suspensa pelo Instagram. A investigação, entretanto, não comprova que o pedido de Vorcaro tenha provocado diretamente a suspensão da conta.

Porém, mudou a perspectiva tanto de Ana, que processou a Meta, como de muitos que agora estão incrédulos com a história e com mais uma pergunta: quem pode tentar controlar o que é contado sobre uma festa/festival?

Essa é uma fronteira muito mais delicada do que já é. A música eletrônica contemporânea nasceu e cresceu também pela circulação de informação: flyers, fóruns, blogs, comunidades, DJs, páginas independentes, vídeos, sets, relatos de festas.

Uma pessoa como a Ana não é apenas uma espectadora. Ela também é parte da construção da memória daquela cena. E quando vemos um conteúdo sobre uma festa privada incomodar um poderoso, a disputa deixa de ser sobre privacidade e sim sobre o domínio da narrativa (que vemos em outros exemplos, mas vamos focar no Madame).

Mais uma pergunta norteadora: porque o subsolo?

A música sempre circulou entre classes, países, gerações e interesses diferentes.

A música eletrônica, especialmente, aprendeu há décadas a transformar clubes underground em grandes festivais internacionais. DJs que começaram em pequenos clubes hoje tocam para dezenas de milhares de pessoas.

Porém, num mundo onde “money changes everthing“, existe sim os dominadores da narrativa, aqueles que querem deter o direito de exclusividade sobre quem pode cantar, quem pode tocar, quem pode acessar o evento. Ou seja, cultura também é poder.

Quem tem dinheiro pode transformar uma noite privada em um acontecimento que reúne artistas internacionais, empresários e até autoridades. E, longe do público, coisas são definidas a ponto de só descobrirmos no dia seguinte. Mas o que Vorcaro não contou é que num mundo onde “não se poderia deixar rastros”, deixou rastros.

O que era pra ser apenas um dos inúmeros casos onde a Meta é processada por não deixar claro as suas regras de uso aos criadores de conteúdo, também podemos dizer que a Meta é também suspeita de querer dominar a narrativa sobre esses criadores.

Uma festa que pretendia desaparecer acabou produzindo uma espécie de arquivo involuntário sobre as relações entre dinheiro, poder, entretenimento e influência.

A decisão correta do ministro Edson Fachin de determinar a divulgação de provas do caso Banco Master ampliou justamente esse processo de exposição. Reportagens passaram a acessar mensagens, documentos e outros materiais que ajudam a reconstruir as relações ao redor de Vorcaro.

Curiosamente, o underground fez aquilo que se esperava: guardar a sete chaves uma história. Só que agora foi revelada: era alguns dos poderosos chegando pra dançar, decidir, fazer de tudo que lhe permite. Até porque, no dia seguinte, era o dia de pegar o terno e acompanhar o dia, como “um careta”.

E, quando aqueles que possuem dinheiro suficiente para comprar quase qualquer experiência começam a ocupar esses territórios, precisamos perguntar: a música continua sendo o espaço de encontro entre pessoas diferentes — ou está se tornando mais um lugar onde o poder compra a própria realidade?

Comunidade urbannática

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