Eurovision 2026: Bulgária campeã (para a surpresa de muitos)

Com um pacote que inclui até meme, a Bulgária foi catapultada à sua inédita vitória. Mas a 70ª edição foi, em mais de um sentido, histórica além do pódio.

Com um pacote que inclui até meme, a Bulgária foi catapultada à sua inédita vitória. Mas a 70ª edição foi, em mais de um sentido, histórica além do pódio.


Há certas palavras que entram no mundo sem pedir licença e sem trazer manual de instruções. Bangaranga é uma delas. Ninguém sabe ao certo o que significa — nem a própria Dara, a cantora búlgara que a levou à vitória no Eurovision Song Contest 2026. Quando pressionada na noite de sábado, no palco do Wiener Stadthalle, em Viena, ela respondeu que Bangaranga é “a sensação que todo mundo carrega dentro de si no momento em que escolhe liderar pelo amor e não pelo medo.” Filosófico? Vago? Totalmente Eurovision?


Pois bem, funcionou. Ela se tornou campeã no primeiro aniversário de seu casamento – e nos detalhes podemos contar aqui abaixo.

De dark horse a cristal

Ninguém tinha a Bulgária no cartão de favoritas quando as luzes do Wiener Stadthalle se acenderam na noite de sábado. E foi exatamente isso que tornou o momento tão elétrico. As casas de apostas apontavam Finlândia, Austrália e Grécia como os nomes mais prováveis para a vitória. Dara chegou à semana da competição como uma aposta lateral, foi crescendo nas pesquisas de imprensa e audiência ao longo dos ensaios, e no momento em que o público europeu tocou na tela, já era outra coisa.


Ao receber um total de 516 pontos — 204 do júri nacional (1º lugar) e 312 do televoto (também 1º lugar), Dara tornou-se a primeira vitoriosa nas duas instâncias simultaneamente, desde Salvador Sobral em 2017, diante da própria Bulgária com Kristian Kostov. O resultado é, por qualquer métrica, uma dominância.

O melhor resultado da Bulgária antes dessa vitória havia sido em Kiev, quando Kostov ficou em segundo lugar com “Beautiful Mess” e 615 pontos — ainda do maior placar da história do concurso até aqui (738 pontos). Aquele vice havia se transformado em mitologia. Sábado à noite, o capítulo finalmente se fechou. A Bulgária vai sediar o Eurovision 2027, com muita probabilidade em Sofia, a capital.

Choque: Romênia em terceiro!

O terceiro lugar foi para outro nome-surpresa: a romena Alexandra Căpitănescu com a provocadora “Choke Me“, que ficou em segundo no televoto. A australiana Delta Goodrem chegou ao quarto lugar com a midtempo “Eclipse“, e o hitmaker italiano Sal Da Vinci ficou em quinto com “Per Sempre Si“. A dupla finlandesa — o cantor pop Pete Parkkonen e a violinista clássica Linda Lampenius —, favorita nas casas de apostas, terminou em sexto. Os favoritos, mais uma vez, foram para de maos vazias. O Eurovision tem disso.

Após decepções na primeira semifinal… Segunda semi foi decisiva

A segunda semifinal, realizada em 14 de maio, foi o dia em que o show de Dara deu o primeiro aviso geral.


No Wiener Stadthalle, com 15 países disputando as 10 vagas restantes na grande final, que voltou a contar com a votação dos jurados profissionais após anos de ausência, a Bulgária já foi a vencedora da segunda semifinal com “Bangaranga” — um sinal que quase ninguém leu antes do show.

As outras nove classificadas foram: Ucrânia, Noruega, Austrália, Romênia, Albânia, Chipre, Dinamarca, Tchéquia e Malta.


As três classificadas automáticas que performaram e votaram na semifinal — Áustria, França e Reino Unido — estavam presentes no palco mas fora da disputa por vagas, retornando sábado para a grande final.

O elefante na sala: boicotes, vaias e 35 países

Espanha, Islândia, Irlanda, Países Baixos e Eslovênia se retiraram da competição por conta da participação contínua de Israel, transformando temporariamente o “Big Five” em um “Big Four” – somado a um prejuízo praticamente milionário para a EBU. O total de 35 países participantes foi o menor desde a introdução das semifinais em 2004. 


A emissora israelense KAN recebeu aviso formal da EBU por conta de vídeos de campanha incentivando o público a votar 10 vezes em Israel — os vídeos foram retirados do ar, mas o episódio adicionou mais uma camada de tensão a uma semana que já não era exatamente tranquila. Durante a performance de Noam Bettan, algumas bandeiras palestinas foram agitadas e parte do público virou as costas para o palco.


Israel terminou em segundo, com 343 pontos (123 do júri + 220 do televoto), pelo segundo ano consecutivo. O resultado provocou vaias e gritos de “Palestina Livre” até “Am Yisrael Chai” (“Para Israel, Tudo”) ao mesmo tempo. Era evidência que isso iria acontecer e um termômetro para o final deste ano, com as assembléias das emissoras membras da EBU.


E atenção: devido as polêmicas falas de Martin Green, atual diretor do evento, em uma entrevista sobre Rússia e Belarus, mais países cogitam sair do festival em protesto contra a vontade de uma neutralidade forçada e contra as legislações vigentes na Europa que impedem, por ora, a volta destes países.

Quem pode estar nesta debandada: Ucrânia, Luxemburgo, Bélgica (que já se manifestaram), Portugal e Noruega (em rumores). Confirmando, podemos ter 10 a 15 países fora do evento.

Martin Green said Russia could return to the contest, even if the war in Ukraine is ongoing.Full interview: x.com/pabloohana/s…#Eurovision

Nicke 🇸🇪🇺🇦🍉 (@hejinternet.bsky.social) 2026-05-15T17:02:31.453Z


O número do intervalo foi um alívio bem-vindo: uma reunião do “Celebration!” trouxe um misto de campeões e alumnis como Alexander Rybak, Lordi, Ruslana, Verka Serduchka, Erika Vikman, Kristian Kostov e Max Mutzke de volta ao palco, acompanhados por Parov Stelar e uma surpreendente primeira performance ao vivo de JJ — o vencedor austríaco do ano passado — com uma canção inédita.


14 de novembro: o Eurovision vai à Ásia

Enquanto o confete de Viena ainda não foi varrido, a EBU já tem os olhos em outro horizonte — literalmente.


O Eurovision Song Contest Asia (ESCA) é um concurso internacional de música modelado a partir do Eurovision, no qual emissoras da região Ásia-Pacífico competem representando seus países. A edição inaugural, organizada pela EBU e pela Voxovation, produzida pela S2O Productions e sediada pela emissora anfitriã Channel 3 da Tailândia, acontecerá em 14 de novembro de 2026, no IdeaLive, em Bangkok.


Os dez países confirmados para a estreia são: Bangladesh, Butão, Camboja, Coreia do Sul, Laos, Malásia, Nepal, Filipinas, Tailândia e Vietnã. O concurso consistirá em uma única final, com as mesmas regras da edição matriz. O início das seleções, por meio dos festivais nacionais, será em agosto.


A expansão foi anunciada no 70º aniversário do maior evento musical ao vivo do mundo — o que faz da data algo mais do que coincidência de calendário. O nome “Eurovision” foi mantido no título, a pedido das próprias emissoras asiáticas prospectivas, que enxergam na marca algo que transcende o continente europeu. Faz sentido: o Eurovision nunca foi só sobre a Europa, uma vez que sua corporação também contempla o Oriente Médio, a América Latina e a Ásia. A Austrália, que compete no original desde 2015, não irá participar da edição asiática — a SBS declarou que não estará no ESCA inaugural, mas acompanhará “com interesse” o desenvolvimento do concurso.


Resta saber como o formato vai se traduzir para culturas com tradições musicais tão distintas entre si — do K-pop coreano ao mor lam laosiano, do OPM filipino ao indie do Vietnã. Mas essa é, talvez, a questão mais interessante que o Eurovision já gerou em 70 anos: o que acontece quando a fórmula encontra um mundo que não a inventou?


Bangaranga, provavelmente.

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